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BU – History in Portuguese

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BU – História em português

Um olhar sobre a nossa história e as nossas aspirações

 

Há duas histórias para contar – a dos Burghers na região de Batticaloa e a da União Burgher de Batticaloa, uma organização fundada em 1927.

Os Burghers da costa oriental

Longe vão os dias em que a língua franca falada pelos Burghers na costa oriental do Sri Lanka (Batticaloa, Kalmunai, Akkaraipattu e Trincomalee) era o crioulo português. A associação União Burgher de Batticaloa nasceu em resposta à necessidade de uma consciencialização comunitária por iniciativa de pessoas como o falecido sr. F.R. Ragel.  Nas primeiras décadas, a União Burgher não possuía instalações, pelo que os seus membros costumavam reunir-se informalmente em casas amplas, como a do sr. F. R. Ragel, em Lady Manning Drive, em Batticaloa.

Os Burghers do Sri Lanka têm ascendência europeia e a linhagem masculina determina o apelido, que os identifica como pertencentes à comunidade. Na região litoral oriental, a essa ascendência é predominantemente portuguesa.

Durante o período de 1505 a 1658, os capitães portugueses e as suas tripulações que vieram até ao Oceano Índico, e à nossa ilha em forma de lágrima, desposaram mulheres da terra. Esta ocorrência histórica está, portanto, na origem da mestiçagem da comunidade Burgher. Actualmente, incentiva-se o casamento dentro da comunidade. O que nos torna únicos é a nossa ancestralidade e a preservação desta cultura particular no contexto do ambiente cultural e social do Sri Lanka.

Em Batticaloa, a preservação cultural é observada facilmente nos costumes e rituais que acontecem por ocasião dos nascimentos (momento em que se revela a nossa religião cristã), casamentos (com o vestuário, a música e a dança Kaffringha, além da nossa gastronomia) e funerais (em que as últimas orações, a caminho do cemitério, são rezadas em crioulo português).

Os membros mais antigos da nossa comunidade são agraciados com o privilégio de falarem (mas não escreverem) crioulo português. Apesar de ser actualmente uma língua em extinção no Sri Lanka, ainda restam algumas famílias que continuam a falar crioulo português, o que permite que as crianças aprendam essa língua.

Para uma compreensão do percurso histórico que conduziu até à realidade actual da comunidade Burgher portuguesa do Sri Lanka, é importante recuarmos no tempo, até ao século XVII, quando os holandeses puseram fim à presença portuguesa na ilha.

Em 1638 os portugueses do Ceilão tentaram quebrar a aliança entre os holandeses e o rei Raja Sinha do Ceilão.

Em 4 de Fevereiro de 1638 teve lugar uma batalha pelo controlo do Oceano Índico entre a frota portuguesa, sob o comando do almirante D. António Teles de Meneses, e uma frota holandesa comandada pelo almirante Adam van Westerwold.

Em consequência da derrota naval dos portugueses, o capitão-general Diogo de Melo deixou a fortaleza de Colombo com o seu exército, em Março de 1638, com o propósito de destruir o reino de Kandy.  O objectivo era, uma vez mais, quebrar a aliança entre Kandy e os holandeses.

Todavia, ao aproximar-se do palácio real, o exército português sofreu um ataque do exército de Kandy. As tropas de Raja Sinha infligiram ao exército português uma severa derrota, obrigando-o a recuar de forma desordenada para Colombo.

A aliança entre Kandy e os holandeses acabou por ser formalizada em 14 de Abril de 1638.

Também na costa oriental da ilha a presença portuguesa estava ameaçada. Cerca de 100 soldados holandeses, alguns marinheiros e duas baterias, sob as ordens do comandante Coster, e dois mil soldados do exército de Raja Sinha, puseram cerco ao forte português de Batticaloa. No entanto, nenhuma batalha chegou a ocorrer nessa altura, dado que o comandante Coster teve notícia de que a frota holandesa, dirigida pelo vitorioso almirante Adam van Westerwold, ia a caminho de Batticaloa.

A esquadra holandesa, comandada pelo almirante Adam van Westerwold, chegou a Batticaloa no dia 10 de Maio de 1638. Foram posicionados soldados e canhões no dispositivo do cerco e a batalha teve início no dia 18 de Maio, terminando após quatro horas de bombardeamento com a rendição do forte português. Batticaloa foi a primeira fortaleza a ser perdida pelos portugueses na ilha do Ceilão.

Em termos da rendição do forte, houve um salvo-conduto para as tropas e para os oficiais portugueses, que acabaram por ser expulsos de Batticaloa. Mas esse salvo-conduto não abrangeu as famílias indígenas, pelo que as esposas e os filhos dos portugueses viriam a permanecer em Batticaloa.

Estes acontecimentos foram também acompanhados por um outro facto. Em 1630, houve uma revolta no Principado de Uva contra o rei de Kandy. Os revoltosos pediram ajuda aos portugueses, que se deslocaram de Colombo com o governador Constantino de Sá de Noronha ao comando.

Quando os portugueses entraram em Babulla, a rebelião tinha sido dominada pelas tropas de Kandy. Os revoltosos sobreviventes refugiram-se atrás das muralhas seguras do forte de Batticaloa.

Os portugueses destruíram Dambulla, mas no regresso para Colombo sofreram uma grande derrota, infligida pelo exército de Kandy, e o governador Constantino de Sá de Noronha foi morto e a sua cabeça espetada numa vara e enviada para o rei de Kandy.

Quando, em 1638, aconteceu a conquista do forte de Batticaloa, onde se haviam refugiado, em 1630, os revoltosos do principado de Uva, havia chegado o tempo da vingança para o rei de Kandy, que os mandou empalar.

Depois de todos estes acontecimentos, os descendentes dos portugueses viveram uma situação muito particular. O rei de Kandy não considerava os Burghers portugueses como seus súbditos, pelo que a comunidade acabou por se transformar num enclave, vista com desconfiança pelos holandeses em virtude da prática da religião católica.

Em 1668, os holandeses decidiram construir uma nova fortaleza em Batticaloa.

A decisão não foi bem aceite pelo rei de Kandy, que protestou veementemente porque desejava manter o comércio livre na região. Contudo, foi dado início à obra, seguindo-se uma retaliação por parte do rei de Kandy, que decretou guerra contra os holandeses e determinou a suspensão de qualquer actividade económica em Batticaloa entre os cingaleses e os ocupantes – nomeadamente nos domínios da agricultura, pesca e mão-de-obra.

Em Batticaloa acabaram por permanecer, apenas, os Burghers portugueses. Na medida em que o seu número era reduzido, havia dificuldade em dar resposta às necessidades básicas da vida e à expansão da colónia holandesa.

Os holandeses, para superarem a falta de mão-de-obra em diferentes áreas em Batticaloa, e por não confiarem nos cingaleses, transferiram um largo número de tâmiles da região de Jaffna, uma vez que estas populações não estavam sob influência do rei de Kandy. Isto causou um ainda maior isolamento dos Burguers portugueses, que se viram excluídos com a chegada da nova mão-de-obra tâmil.

Entretanto, os Burguers portugueses conservaram uma unidade espiritual graças à chegada do frade português José Vaz, em 1695, que revitalizou a fé católica. Depois dele, embora não de forma regular, o Vice-rei da Índia, em Goa, enviou outros missionários.

É indiscutível que nos tempos posteriores houve mudanças positivas, mas a comunidade de Burguers portugueses tem permanecido muito isolada. No entanto, mercê do enraizamento em velhas tradições de origem lusitana, mescladas com influência cingalesa, ainda se continua a cantar e a dançar músicas portuguesas na comunidade. Durante séculos houve algum contacto com a cultura portuguesa, mas após a perda da Índia portuguesa em 1961, terminaram os contactos com a comunidade de luso-descendentes de Batticaloa.

Nos tempos coloniais, a língua utilizada na administração era a da potência dominante. Durante o domínio britânico, era o inglês. Como os Burghers frequentavam a escolas cristãs, onde a educação era administrada em inglês, era fácil para eles encontrarem empregos como funcionários. Em Batticaloa, essas escolas eram as do St Michael’s College, do St Cecilia Convent e as escolas metodistas – o Central College e a St Vincent’s Girls School.

No passado – e na realidade, actualmente -, as actividades profissionais de muitos Burghers na região oriental do Sri Lanka eram, sobretudo, actividades artesanais – carpintaria, serralharia, mecânica e costura. Eram e são ainda hoje bem conhecidos pela sua inventividade, designadamente no domínio da reparação de relógios, armas e de veículos de tracção animal.

Ao contrário dos funcionários públicos assalariados que trabalham para o Estado, ou dos homens de negócios que detêm poupanças, estes artesãos, remunerados pelo seu trabalho diário, sofreram mais quando a região foi afectada por catástrofes como as das cheias de 1957 (quando o dique do reservatório Unnichchai se rompeu), do ciclone de 1978 e do tsunami de 2004 e, mais recentemente, a das cheias de 2011.

Actualmente registam-se algumas notáveis mudanças na nossa comunidade. Historicamente, somos uma comunidade conhecida pelos seus mestres tipógrafos, e alguns notáveis Burghers são proprietários de tipografias. Hoje, estes tipógrafos são uma raridade e são trabalhadores muito valorizados pela Christian Brothers Printing Press.

O espaço da língua franca passou a ser ocupado pelas línguas vernaculares, o que foi largamente influenciado pelo facto de a educação nas escolas públicas ser ministrada em tâmil e em cingalês. Desde sempre a União Burgher pugnou pelo renascimento da língua portuguesa entre jovens e velhos Burghers nos distritos de Batticaloa, Trincomalee e Ampara, e as crianças foram incentivadas a assistir a aulas de português.

Facto importante para a empregabilidade, visamos a multiplicação entre a comunidade de trabalhadores com graus universitários, como dentistas, arquitectos urbanistas, professores, contabilistas e gestores trabalhando no sector financeiro ou em ONGs. Há, até, um médico em perspectiva.

 

A União Burgher de Batticaloa

Nos primeiros tempos da União Burgher de Batticaloa, as reuniões eram realizadas nas moradias da classe média alta e nas discussões era usado o crioulo português. A formalização da União Burgher ocorreu em 1962, com a criação dos seus Estatutos, e foi realizada sob a liderança do então presidente e dos seus oficiais executivos. Em 1970 foi adquirido um lote de terreno e construída a sede em 1974 durante a presidência do sr. Ronald Rosario.  Após o tsunami, e graças às doações de vários benfeitores, particularmente do Rev. Fr. Miller, SJ, foi construído mais um piso.

Entre os presidentes da União Burgher, contam-se cidadãos como os srs. Barthelot, Peters, Cecil Ockersz, Ronald Rosario, Claver Ragel, Regis Ragel, Sonny Ockersz , Bonny Vincent e Terrence Sellar.

Ao longo dos anos fomos contemplados com sorte de termos doadores dedicados. O apoio magnânimo da falecida sra. Marcella Andrado permitiu-nos a prestar ajuda à população carenciada, a prestar auxílio durante as cheias e a fornecer assistência imediata às vítimas do devastador tsunami de 2004. A sra. Marcella foi uma firme apoiante do progresso dos Burghers e manteve sempre viva a consciência dos Burghers que viviam na Austrália quanto às necessidades do seu povo. A sra. Marcella foi sempre uma inspiração para os outros Burghers que a ela se juntaram – enviando dinheiro, roupas e livros. Actualmente, é Mignon Hardie que desempenha este papel de benfeitor, levando, particularmente, o apoio médico da Clínica AUSLMAT do Dr. Quintus aos Burghers da região oriental do Sri Lanka e apoiando o programa 80 Club, coordenado por Trevor Collette.

Mas não há bela sem senão. Para nós, a tristeza maior foi a devastação provocada pelo tsunami de 2004, quando se perderam as vidas de 99 habitantes da zona da Dutch Bar. Em sua memória foi erguido um monumento na praia, em frente da Dutch Bar.

Foram construídas novas casas e infraestruturas para os que sobreviveram ao tsunami e para aqueles cujas casas forma afectadas, em colaboração com o Governo do Sri Lanka, que doou terras em Panichchaiyadi e Thannamunai, e com a Helvetas Swiss Intercooperation, a que se juntou uma campanha de angariação de fundos organizada pelo capitão Lester Weinman e por Stephen Labrooy. Beneficiaram deste programa 150 famílias, sob a coordenação do então presidente S. T. (Sonny) Ockersz e da sua equipa.

Prestamos homenagem a estas personalidades e todos os que se lhes juntaram, pela sua generosidade de coração em tempos de necessidade. De diferentes maneiras, persistem contínuos apoios como os disponibilizados pelo 80 Club, que desde 2005 tem vindo a apoiar estudantes da província oriental do Sri Lanka.

 

As nossas aspirações

Por iniciativa do sr. Earl Barthelot, secretário da União Burgher (2010, 2012-2014), foram constituídos 15 comités nas áreas e aldeias em que vivem Burghers, na província oriental, incluindo as áreas de Trincomalee e Akkaraipattu. Ao longo do tempo, as inscrições na União Burgher de Batticaloa foram-se-se ampliando de forma a incluir mais gente, de Trincomalee a Akkaraipattu, no sul, além de Batticaloa. É nosso objectivo estender as inscrições na União Burgher às populações residentes em áreas remotas do Sri Lanka. Gostaríamos de acolher, especialmente, a gente que vive em Jaffna, Mannar, Matara, Kandy, Hambantota, etc.

Acolhemos fraternalmente todos os que queiram juntar-se a nós na preservação e revitalização da comunidade Burgher, promovendo a cooperação e o apoio à nossa comunidade, entre outras comunidades, e dando as mãos para a prestar auxílio a quem dele tem necessidade, especialmente os enfermos e os jovens, que carecem de educação e de oportunidades de emprego.

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